Pular para o conteúdo

Uma IA que não decide nada

Existe um caso brasileiro que funciona há anos, com números publicados todo ano. Ele funciona, entre outras coisas, porque a máquina não decide — ela levanta a mão.

Rodrígo Dell5 min de leitura
Composição abstrata: um fluxo denso de marcas atravessa a imagem da esquerda para a direita e um punhado delas é desviado para cima, destacado em cor quente.

Dez textos desta série descrevem coisas que dão errado.

Este descreve uma que deu certo, e vale dizer por que isso importa: um acervo em que nada funciona não é análise, é temperamento. Se a tese central aqui é que existe uma forma de usar inteligência artificial que constrói capacidade, então tem de haver um caso em que ela foi usada assim.

Tem. É brasileiro, é público, e os números saem todo ano.

O que é

A Alice — acrônimo de Analisador de Licitações, Contratos e Editais — é uma ferramenta desenvolvida pela Controladoria-Geral da União que lê, de forma automatizada e diariamente, processos de compras e contratações públicas.

Ela puxa dados do Compras.gov.br, do Licitações-e do Banco do Brasil, das Licitações da Caixa e das dispensas e inexigibilidades publicadas no Diário Oficial da União. Usa, nas palavras da própria CGU, "técnicas de mineração de textos e inteligência artificial" para selecionar automaticamente editais e disparar alertas sobre riscos na contratação.

Direcionamento para determinada empresa. Sobrepreço. Contratação desnecessária. São esses os padrões que ela procura.

E aqui está a parte que interessa a esta série: o que a Alice produz é um alerta. Não uma decisão, não um indeferimento, não um cancelamento. Um alerta que chega a um auditor.

Os números

Da página institucional da CGU, referentes a 2024:

Mais de 161 mil processos de compras examinados — 35.210 de órgãos fiscalizados pela CGU e 126.450 de outras organizações públicas. Dessas análises resultaram 212 auditorias, sobre compras que somam R$ 30,57 bilhões. E foram contabilizados R$ 1,25 bilhão de benefícios financeiros decorrentes das ações preventivas direcionadas pela ferramenta.

No ano anterior, mais de 190 mil processos analisados, com cancelamento ou suspensão de compras somando mais de R$ 2,08 bilhões.

Repare na proporção: 161 mil processos lidos, 212 auditorias abertas. Cerca de uma a cada setecentos e sessenta.

Essa razão não é um defeito da ferramenta. É a descrição do trabalho dela.

Por que isto se sustenta

Quatro coisas, e nenhuma é sobre a qualidade do modelo.

A saída é uma pergunta, não um veredito. Um auditor humano recebe o alerta, abre ou não abre a auditoria, e responde pelo que decidir. Toda consequência lá na frente — uma licitação cancelada, um valor reduzido — tem um nome atrás. É o oposto do ato administrativo sem autor identificável que descrevi em Quem responde pela planilha que virou sistema.

A triagem é o produto, e é honesta sobre isso. Ninguém alega que a máquina identificou irregularidade. Ela reduziu 161 mil documentos a um conjunto que cabe na capacidade de análise que existe. Esse é exatamente o problema que uma instituição tem, e raramente é o problema que se tenta resolver com IA.

Os números publicados são de resultado, não de adoção. Não é "tantos servidores capacitados" nem "tantos processos com IA". São auditorias abertas e benefícios contabilizados — coisas que aconteceram, não coisas que foram distribuídas. Já argumentei em Adoção não é capacidade que a diferença entre as duas famílias de indicador é quase tudo.

Ela saiu do prédio. A CGU disponibilizou a ferramenta para estados e municípios, e no último ano 126 entes foram cadastrados para receber alertas: 32 federais, 33 estaduais e distritais, 61 municipais. Uma prática que só funciona onde nasceu é uma prática de uma equipe. Uma que outros conseguem operar começa a ser capacidade.

O que os números não dizem

Um artigo sobre algo que deu certo perde o valor se não for tão rigoroso quanto os que falam do que deu errado.

Os números são da própria CGU. Não encontrei avaliação independente da ferramenta. Isso não os torna falsos — órgão de controle publica seus resultados como parte da prestação de contas —, mas é diferente de ter sido verificado por terceiro.

"Benefício financeiro" não é o mesmo que economia. É uma categoria contábil da auditoria pública, calculada segundo critérios próprios, e repare que a CGU usa esse termo e não "economia". A precisão do vocabulário aqui é da instituição, e vale preservá-la. Fontes secundárias que noticiaram o mesmo trabalho trocaram o termo — e também erraram números e até a expansão da sigla.

Alerta não é acerto. As páginas públicas informam quantos alertas viraram auditoria; não encontrei quantos alertas foram descartados por não procederem. Sem isso, não dá para dizer qual é a taxa de falso positivo, que é a pergunta técnica mais importante sobre uma ferramenta de triagem.

E o contexto é particular. Um órgão de controle olhando processos de terceiros é um problema diferente de um órgão de ponta decidindo sobre um cidadão. Ali o erro custa uma auditoria desnecessária; aqui, custa um direito negado. Não dá para transportar a conclusão de um para o outro sem refazer a conta.

O que dá para levar disso

Nenhuma dessas ressalvas desfaz o caso. Elas o tornam utilizável.

O padrão que se pode copiar não é a tecnologia. É o desenho:

Uma ferramenta que lê muito e decide nada. Um humano identificável em cada consequência. Indicadores de resultado publicados anualmente, e não de distribuição. E um esforço deliberado para que outra instituição consiga operar aquilo — que é o teste que separa uma boa ideia de uma capacidade instalada.

Vale notar o que não foi preciso para isso funcionar: nenhum modelo de fronteira, nenhuma autonomia, nenhuma promessa de substituir julgamento.

A Alice existe há anos, faz uma coisa só e a faz sobre um volume que nenhuma equipe leria.

É pouco ambicioso, e é por isso que continua funcionando.


Fontes. Todos os números e a expansão da sigla vêm da página institucional da Alice na CGU, consultada em 3 de setembro de 2026. O balanço de dezembro de 2024 divulgado pela CGU, que circulou na imprensa com números diferentes, está atualmente em área de acesso restrito do portal — por isso este texto usa apenas o que está publicamente acessível.

CompartilharLinkedIn (abre em nova aba)X (Twitter) (abre em nova aba)WhatsApp (abre em nova aba)

Caderno do Servidor Aumentado

Receba o próximo texto.

Artigos sobre inteligência artificial, decisão e capacidade institucional no serviço público. Escrevo quando tenho o que dizer — não há calendário.

  • Só aviso de texto novo. Sem sequência automática e sem newsletter semanal.
  • Nenhum compartilhamento com terceiros.
  • Você sai da lista quando pedir — e o endereço é eliminado.

Prefere sem e-mail? O RSS publica os mesmos textos.

Em outros idiomas

O artigo é escrito em português do Brasil e o texto integral está nesta página. As sínteses abaixo são traduções de trabalho, para quem chega por outro idioma.

English · Working translation

An AI that decides nothing

There is a Brazilian case that has been working for years, with figures published annually. It works partly because the machine does not decide — it raises its hand.

Nine of the previous essays in this series describe something going wrong. This one describes something that works: Alice, a tool built by Brazil's federal comptroller general to read public procurement documents automatically and raise alerts. According to the agency's own published page, in 2024 it examined more than 161 thousand purchase processes, which led to 212 audits covering R$ 30.57 billion in purchases and R$ 1.25 billion in what the agency carefully calls financial benefits rather than savings. The article argues the design is the reason: the tool triages and humans judge, every step leaves an addressable decision, and the tool was made available to states and municipalities rather than kept in one building. It is equally explicit about the limits — the figures are the agency's own, the benefit is an attributed category rather than a measured counterfactual, and a control body watching others is not the same as a service agency deciding about a citizen.

Published on 17 August 2026, in Brazilian Portuguese. The full text is on this page; only this summary has been translated — there is no English version of the article itself. It is part 11 of the series “Caderno do Servidor Aumentado”.

Questions and answers
What is this article about?
Alice, a tool developed by Brazil's Controladoria-Geral da União that automatically analyses public procurement documents and raises alerts for human auditors — presented as a case where artificial intelligence in government demonstrably worked.
What are the published figures?
On the agency's own page: more than 161 thousand purchase processes examined in 2024, leading to 212 audits covering R$ 30.57 billion in purchases, with R$ 1.25 billion recorded as financial benefits from the preventive actions. For 2023 it reports more than 190 thousand processes analysed and more than R$ 2.08 billion in cancelled or suspended purchases.
Why does the article say it works because it decides nothing?
Because the tool's output is an alert, not a decision. It narrows 161 thousand documents to a few hundred worth human attention, and every consequence downstream comes from an auditor who can be named and questioned.
What limits does the article acknowledge?
The figures are self-reported by the agency with no independent evaluation cited; the financial benefit is an attributed accounting category rather than a measured counterfactual; and a control body scrutinising other bodies is a different problem from a service agency deciding about a citizen.

Español · Traducción de trabajo

Una IA que no decide nada

Existe un caso brasileño que funciona desde hace años, con cifras publicadas cada año. Funciona, entre otras cosas, porque la máquina no decide — levanta la mano.

Nueve de los ensayos anteriores de esta serie describen algo que sale mal. Este describe algo que funciona: Alice, una herramienta de la Contraloría General de la Unión de Brasil que lee automáticamente documentos de compras públicas y emite alertas. Según la propia página del organismo, en 2024 examinó más de 161 mil procesos de compras, lo que derivó en 212 auditorías sobre R$ 30,57 mil millones en compras y R$ 1,25 mil millones en lo que el organismo llama con cuidado beneficios financieros, y no ahorro. El artículo sostiene que el diseño es la razón: la herramienta hace triaje y las personas juzgan, cada paso deja una decisión con responsable, y la herramienta fue puesta a disposición de estados y municipios en lugar de quedarse en un solo edificio. Es igualmente explícito sobre los límites: las cifras son del propio organismo, el beneficio es una categoría atribuida y no un contrafactual medido, y un órgano de control que vigila a otros no es lo mismo que un organismo que decide sobre un ciudadano.

Publicado el 17 de agosto de 2026, en portugués de Brasil. El texto íntegro está en esta página; solo esta síntesis fue traducida — no existe una versión en español del artículo. Es la parte 11 de la serie «Caderno do Servidor Aumentado».

Preguntas y respuestas
¿De qué trata este artículo?
De Alice, una herramienta de la Contraloría General de la Unión de Brasil que analiza automáticamente documentos de contratación pública y emite alertas para auditores humanos — presentada como un caso en que la inteligencia artificial en el Estado demostrablemente funcionó.
¿Cuáles son las cifras publicadas?
En la página del propio organismo: más de 161 mil procesos de compras examinados en 2024, que derivaron en 212 auditorías sobre R$ 30,57 mil millones en compras, con R$ 1,25 mil millones registrados como beneficios financieros de las acciones preventivas. Para 2023 informa más de 190 mil procesos analizados y más de R$ 2,08 mil millones en compras canceladas o suspendidas.
¿Por qué dice el artículo que funciona porque no decide nada?
Porque la salida de la herramienta es una alerta, no una decisión. Reduce 161 mil documentos a unos cientos que merecen atención humana, y toda consecuencia posterior proviene de un auditor que puede ser nombrado y cuestionado.
¿Qué límites reconoce el artículo?
Las cifras son del propio organismo, sin evaluación independiente citada; el beneficio financiero es una categoría contable atribuida y no un contrafactual medido; y un órgano de control que fiscaliza a otros es un problema distinto del de un organismo que decide sobre un ciudadano.

← Todos os artigos