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O gasto de IA que ninguém empenhou

A despesa pública é reservada antes de acontecer. O consumo de inteligência artificial só é conhecido depois. As duas lógicas não se encaixam, e é o órgão que fica no meio.

Rodrígo Dell7 min de leitura
Composição abstrata: milhares de pontos minúsculos se acumulam da esquerda para a direita em massa crescente e ultrapassam uma linha tracejada horizontal.

Ninguém pensa estar gastando dinheiro público ao abrir uma conversa com um modelo.

O servidor tem um parecer para entregar. Abre a ferramenta que o órgão contratou, descreve o caso, recebe uma primeira versão, corrige, pede outra, compara duas redações, pede um resumo do processo anexo. Em vinte minutos resolveu o que levaria a tarde inteira.

Nenhuma dessas ações se parece com uma decisão de gastar.

Não há requisição. Não há autorização. Não há um momento em que alguém pare e pergunte se aquilo cabe no orçamento — porque não existe, no fluxo, nada que sinalize que algo está sendo consumido.

Multiplique por quatrocentos servidores e doze meses.

No fim do exercício, existe uma despesa relevante que não passou por nenhuma decisão que alguém no órgão reconheça como tendo sido uma decisão.

A despesa pública é reservada antes. O consumo é conhecido depois.

Aqui está o desencontro, e ele é estrutural, não administrativo.

A lógica orçamentária do Estado é de previsão e reserva. Estima-se a despesa, aloca-se dotação, empenha-se antes de contratar, e o gasto acontece dentro daquilo que foi reservado. Todo o sistema de controle da administração pública supõe que a decisão de gastar antecede o gasto.

Um serviço cobrado por consumo inverte a ordem.

O custo do mês só é conhecido quando o mês termina. E ele não depende de uma decisão da gestão: depende de quantas pessoas usaram, com que frequência, em tarefas de que tamanho. Depende de um comportamento coletivo que ninguém aprovou porque ninguém precisou aprovar.

O órgão empenha um valor estimado.

A estimativa é uma função do jeito como algumas centenas de pessoas vão decidir trabalhar no ano seguinte.

Ninguém sabe isso em janeiro.

Quatro coisas que decorrem disso

O desencontro acima não é uma curiosidade contábil. Ele produz consequências que aparecem em ordem previsível.

O custo unitário não é do órgão. Numa licença por usuário, o preço é conhecido, fixo e comparável entre fornecedores. Num serviço por consumo, o que se contrata é uma tarifa — e tarifa é definida por quem vende. O órgão pode negociar volume, mas não define a unidade nem o valor dela, e passa a ter uma despesa cuja variável principal está fora do seu controle.

A conta sobe junto com o sucesso. Este é o efeito mais desconfortável. Um programa de inteligência artificial que fracassa é barato: ninguém usa. Um programa que dá certo fica caro exatamente na proporção em que deu certo. Se a meta pactuada é ampliar o uso, a meta e o custo são a mesma curva — e o gestor que atingir a meta terá de explicar o crescimento da despesa como se fosse um desvio. É mais uma razão para não confundir adoção com capacidade: a primeira é o que faz a fatura subir, e sozinha ela não garante que algo tenha melhorado.

O consumo é distribuído e a responsabilidade é concentrada. Quem gera custo é cada servidor, individualmente, numa ação que dura segundos. Quem responde pela despesa é o ordenador. Entre os dois não existe nenhum instrumento intermediário: não há equivalente a uma requisição de compra para uma pergunta feita a um modelo, e provavelmente não deveria haver — o atrito destruiria o ganho. Mas a ausência precisa ser reconhecida, porque é ela que torna a despesa invisível enquanto acontece.

Não existe custo por decisão. Um órgão sabe quanto custa uma diária, uma impressão, um deslocamento, uma hora de servidor. Não sabe quanto custou a análise que apoiou determinada decisão. Sem esse número, a pergunta “valeu a pena?” não tem como ser respondida — nem para dizer que sim.

O cenário que quase nenhum contrato provisiona

Há uma hipótese que todo gestor deveria considerar ao assinar, mesmo sem ter como confirmá-la: a de que o preço praticado hoje não seja o preço de equilíbrio.

Não se trata de prever o mercado. Trata-se de reconhecer que o órgão está assumindo uma dependência operacional cujo custo futuro não é definido por ele, e que a hipótese de esse custo subir de forma relevante é razoável o bastante para constar de um cenário.

O ponto não é evitar a dependência. É provisioná-la.

Um contrato que só declara valor global não permite distinguir, na renovação, se a variação de preço veio de mais consumo ou de tarifa mais alta pelo mesmo consumo. São duas conversas completamente diferentes, e o órgão que não separou as duas na assinatura não consegue separá-las depois.

O que dá para definir antes de assinar

Nada disso recomenda evitar contratos por consumo. Eles são frequentemente a forma mais honesta de contratar um serviço cujo uso não se conhece de antemão, e alternativa por licença fixa costuma significar pagar por capacidade ociosa.

O que muda é o que fica definido antes.

Primeira: exigir a unidade de consumo, e não só o valor global. O contrato precisa dizer o que está sendo contado e quanto custa cada unidade. Sem isso, o órgão não tem como comparar propostas, não tem como auditar a fatura e não tem como saber, na renovação, se está pagando mais caro pela mesma coisa.

Segunda: instrumentar antes de escalar. Medir consumo por área e por tipo de uso desde o primeiro mês, não quando a fatura assustar. Vale um esclarecimento, porque a objeção é imediata e legítima: isso não é vigilância sobre o servidor. É a mesma medição agregada que já se faz para telefonia, combustível e impressão, e serve ao mesmo propósito — saber onde o recurso está indo antes de precisar cortá-lo às pressas.

Terceira: definir o que acontece quando o teto é atingido. É a pergunta que quase nenhum contrato responde. No dia em que o consumo alcançar a dotação disponível, o serviço para, degrada para um limite menor, ou continua e gera despesa sem cobertura? As três respostas são administráveis; a ausência de resposta não é, porque a terceira acontece por omissão e é a única das três que produz irregularidade.

Quarta: tratar piloto e serviço em produção como compromissos diferentes. Piloto pode ter consumo livre, porque a finalidade é descobrir o padrão de uso. Serviço em produção precisa de teto, de previsão para o exercício seguinte e de plano de saída — porque, uma vez dentro do fluxo de trabalho, ele deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma dependência, e desligar dependência sem plano custa mais do que o contrato inteiro.

Nenhuma das quatro é técnica.

As quatro são a mesma coisa: transformar uma despesa que acontece sozinha numa despesa que foi decidida — que é a definição prática do que o orçamento público existe para fazer.

Por que isso é um problema de capacidade, e não de custo

Há uma leitura fácil deste texto que seria a errada: a de que inteligência artificial custa caro e o Estado deveria ter cuidado.

Não é o argumento.

O gasto pode ser perfeitamente proporcional ao benefício. O problema é que, do jeito como está montado, o órgão não consegue afirmar isso nem o contrário — e essa incapacidade sobrevive à troca de fornecedor, de ferramenta e de gestão.

Dos três critérios que atravessam a Gestão Pública Aumentada, dois são atingidos diretamente aqui. O de valor público pergunta se a prática produz resultado relevante e sustentável, e sustentabilidade inclui a econômica. O de institucionalização pergunta se a organização consegue continuar, demonstrar e adaptar sem depender desproporcionalmente de circunstância favorável — e preço baixo praticado por um fornecedor é a definição de circunstância favorável.

Um órgão que não consegue responder quanto gasta, com o quê, e se valeu, não tem um problema de finanças.

Tem um problema de construir capacidade em vez de apenas produzir — e o orçamento é só onde ele aparece primeiro.

O ponto

O Estado é muito bom em controlar despesa que tem nota fiscal, empenho prévio e um momento identificável de decisão.

É estruturalmente cego para despesa que se forma em milhares de microdecisões que ninguém vive como decisão de gastar.

Inteligência artificial cobrada por consumo é a segunda coisa com a aparência da primeira: chega com contrato, com fornecedor e com fatura, o que dá a impressão de que os instrumentos de sempre dão conta. Eles dão conta de pagar. Não dão conta de decidir.

Um órgão que não sabe quanto gasta com inteligência artificial ainda não perdeu dinheiro.

Perdeu a possibilidade de dizer que valeu.

E despesa que ninguém consegue enxergar não é despesa controlada. É despesa que ainda não foi discutida.

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O artigo é escrito em português do Brasil e o texto integral está nesta página. As sínteses abaixo são traduções de trabalho, para quem chega por outro idioma.

English · Working translation

The AI spending nobody committed

Public expenditure is reserved before it happens. Artificial intelligence consumption is only known afterwards. The two logics do not fit, and the agency sits in between.

Public budgeting reserves money before the expense occurs; consumption-priced artificial intelligence is only knowable after the fact, and it grows precisely when the programme succeeds. The article sets out what that incompatibility produces inside a public body: a unit price the agency does not control, spending generated by thousands of micro-decisions nobody experiences as a decision to spend, and no cost-per-decision figure with which to judge whether any of it was worth it. It proposes four things that can be settled before signing, including the question almost no contract answers — what happens on the day consumption exceeds the appropriation.

Published on 24 August 2026, in Brazilian Portuguese. The full text is on this page; only this summary has been translated — there is no English version of the article itself. It is part 6 of the series “Caderno do Servidor Aumentado”.

Questions and answers
What is this article about?
The mismatch between how public budgets work — money reserved in advance against a forecast — and how consumption-priced artificial intelligence works, where the bill is only known after the usage happens.
What does it argue?
That the spending is not so much expensive as invisible to the way the State sees expenditure. It arrives through thousands of micro-decisions nobody registers as a decision to spend, it rises as adoption rises, and the unit price belongs to the vendor rather than to the agency.
What does it propose?
Four things to settle before signing: require the unit of consumption in the contract and not only the total, instrument usage before scaling, define what happens when the ceiling is reached, and treat a pilot and a production service as different commitments.
Who is it written for?
Public managers, budget and procurement staff, and anyone who signs or audits technology contracts in the public sector.

Español · Traducción de trabajo

El gasto en IA que nadie comprometió

El gasto público se reserva antes de ocurrir. El consumo de inteligencia artificial solo se conoce después. Las dos lógicas no encajan, y el organismo queda en el medio.

El presupuesto público reserva el dinero antes de que el gasto ocurra; la inteligencia artificial cobrada por consumo solo se conoce después, y crece justamente cuando el programa funciona. El artículo expone lo que esa incompatibilidad produce dentro de un organismo: un precio unitario que la institución no controla, gasto generado por miles de microdecisiones que nadie vive como decisión de gastar, y ningún costo por decisión con el cual juzgar si valió la pena. Propone cuatro definiciones previas a la firma, incluida la pregunta que casi ningún contrato responde: qué ocurre el día en que el consumo supera la dotación.

Publicado el 24 de agosto de 2026, en portugués de Brasil. El texto íntegro está en esta página; solo esta síntesis fue traducida — no existe una versión en español del artículo. Es la parte 6 de la serie «Caderno do Servidor Aumentado».

Preguntas y respuestas
¿De qué trata este artículo?
Del desencuentro entre cómo funciona el presupuesto público — dinero reservado por anticipado contra una previsión — y cómo funciona la inteligencia artificial cobrada por consumo, cuya cuenta solo se conoce después del uso.
¿Qué sostiene?
Que el gasto no es tanto caro como invisible para la forma en que el Estado ve el gasto. Llega por miles de microdecisiones que nadie registra como decisión de gastar, sube a medida que sube la adopción, y el precio unitario pertenece al proveedor y no al organismo.
¿Qué propone?
Cuatro definiciones previas a la firma: exigir la unidad de consumo en el contrato y no solo el valor global, instrumentar el uso antes de escalar, definir qué ocurre al alcanzar el techo, y tratar el piloto y el servicio en producción como compromisos distintos.
¿Para quién está escrito?
Para gestores públicos, equipos de presupuesto y contrataciones, y quienes firman o fiscalizan contratos de tecnología en el sector público.

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