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A ficha de um uso de IA

Nove textos desta série descreveram o que falta. Este entrega a página que resolve a maior parte disso — oito campos, e o que dá errado quando cada um fica em branco.

Rodrígo Dell7 min de leitura
Composição abstrata: uma folha com oito linhas de registro, sete preenchidas em tons frios e uma ainda em branco, destacada em cor quente.

Os nove textos anteriores desta série descrevem problemas.

A inteligência artificial não conhece a instituição. A delegação vira substituição sem avisar. O fornecedor aprende com as correções. Adoção não é capacidade. O gasto não passa por decisão. O prazo escolhe o problema. Ninguém responde pela ferramenta informal. A presunção de que a máquina acerta já custou caro em outro país.

Nenhum deles termina num documento.

Este termina. É uma página, preenchida antes de um uso de inteligência artificial entrar em produção, e ela existe para uma finalidade só: fazer com que a decisão continue encontrável depois que a pessoa que a tomou não estiver mais ali.

Os oito campos abaixo não são invenção. Cada um responde a uma falha concreta, e a maior parte deles já aparece, de alguma forma, em orientação oficial brasileira.

Por que uma página, e não uma política

O caminho formal costuma existir. O que ele não costuma ser é rápido.

O guia de IA generativa do TCU, por exemplo, indica que a implementação de soluções passe por concordância prévia da Secretaria-Geral e da unidade de TI, com aprovação definitiva da Comissão Gestora de Tecnologia da Informação. É o desenho correto para uma solução institucional. É também um trâmite que ninguém aciona para uma conferência mensal de uma unidade — e o resultado, quando só existe o trâmite pesado, é a ferramenta nascer fora de qualquer registro.

Uma página não substitui homologação. Ela cobre a faixa em que a homologação não vai ser acionada e mesmo assim há efeito sobre alguém.

Se preencher a ficha demorar mais do que o uso economiza, ela está errada para aquele caso. Isso é critério, não desculpa.

Os oito campos

1. Que decisão isso apoia, e sobre quem produz efeito

O primeiro campo determina todos os outros. Um uso que organiza a agenda de uma equipe e um que tria pedidos de cidadãos não exigem o mesmo rigor, e tratá-los igual garante que a regra seja ignorada.

Escreva qual decisão administrativa depende daquela saída e quem é afetado por ela. Se a resposta for "ninguém fora da equipe", a ficha provavelmente para aqui — e está tudo bem.

Em branco: não há como calibrar nada do que vem depois.

2. Qual é a regra, escrita por extenso

Não o prompt. Não o código. O critério.

Que condição faz um caso ser sinalizado, com que fundamento, decidido por quem e quando. Em linguagem que um sucessor entenda sem abrir a ferramenta.

A implementação pode ser refeita numa tarde. O critério levou anos para existir, e é a única parte que não se reconstrói.

Em branco: quando a pessoa sair, o órgão continua aplicando uma regra que ninguém sabe enunciar.

3. Quem responde

Um nome, não uma área.

Aqui não há margem de interpretação, e a formulação mais clara que conheço é do próprio Tribunal de Contas da União, no guia que escreveu para os seus servidores: permanece a plenitude da responsabilidade do autor sobre qualquer documento que tenha produzido, com ou sem uso de IA generativa.

Informalidade da ferramenta não redistribui responsabilidade. Só apaga o nome.

Em branco: existe um ato administrativo sem autor identificável, e um ato assim é um ato do qual ninguém consegue discordar.

4. O que entra

Que informação é colada ali: dado de processo, dado pessoal de terceiro, documento interno, critério de decisão.

Dois avisos com peso desigual.

Se entra dado pessoal de terceiro, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados registra que o usuário, ao compartilhá-lo, "poderá, a depender do contexto, ser considerado um agente de tratamento". É uma posição jurídica, e o servidor costuma assumi-la sem saber.

Se entra critério institucional, não há autoridade nem lei — e é justamente por isso que o registro precisa ser interno.

Em branco: ninguém consegue avaliar risco nenhum, porque risco depende do que se expõe.

5. O que acontece com o que entra

As interações são usadas para treinar ou aprimorar o modelo? Ficam retidas por quanto tempo? Existe modo de operação que não retenha, e ele está contratado?

A resposta pode ser inteiramente satisfatória. A ANPD, porém, aponta a "ausência de informações claras e facilmente acessíveis sobre o tratamento dos dados pessoais disponibilizados no prompt" — o que significa que a resposta talvez não esteja disponível, e isso também é uma informação a registrar.

O que não resolve é a saída mais comum: publicar uma cartilha dizendo ao servidor o que não colar. Nas palavras da própria autoridade, transferir essa responsabilidade ao usuário "não parece ser suficiente".

Em branco: o órgão está exportando algo e não sabe o quê.

6. Como alguém contesta

Se o resultado prejudicar uma pessoa, por onde ela reclama, quem analisa de novo, e com base em quê.

Um canal de recurso precisa permitir nova análise, não apenas registrar a inconformidade. E a análise precisa alcançar o critério do campo 2 — contestar sem acesso à regra é contestar no escuro.

Em branco: o erro se repete de forma idêntica em todos os casos até que alguém de fora perceba.

7. Quanto custa uma unidade de uso

Não o valor global do contrato: a unidade. O que está sendo contado e quanto custa cada contagem.

Sem isso não há como comparar propostas, auditar fatura, nem saber, na renovação, se o preço subiu ou se o uso cresceu. São duas conversas diferentes, e quem não as separou na assinatura não as separa depois.

Em branco: a despesa existe e não passou por nenhuma decisão que alguém reconheça como decisão de gastar.

8. Quando isso é desligado, e por quem

Manter também precisa ser uma escolha.

Aqui não é preciso inventar nada: o guia federal de IA para o setor público já trata a desativação como fase do ciclo de vida, com plano de encerramento e aprovação formal. O que quase nunca acontece é alguém preencher esse campo no dia em que liga.

Em branco: a ferramenta vira dependência por omissão, e desligar dependência sem plano custa mais que o contrato inteiro.

O que esta ficha não é

Não é política, não é modelo de maturidade e não serve para pontuar ninguém.

Não há nota, não há nível, não há selo. Se alguém somar os campos preenchidos e transformar isso num índice, a ficha perde a única coisa para a qual serve — porque as pessoas passam a preencher para a nota subir, e não para que a decisão fique registrada.

Campo em branco é informação, não é reprovação. Um campo que a instituição não consegue preencher está dizendo algo verdadeiro sobre ela, e esconder isso atrás de um "sim" é pior do que deixar em branco.

Também não é documento de TI. Sete dos oito campos são respondidos por quem conhece o processo, não por quem conhece a ferramenta.

Onde ela deve ficar

Num lugar do órgão, não numa pasta pessoal, e não no histórico de conversa com o modelo.

Esse detalhe parece administrativo e não é. A ficha existe para sobreviver à saída de quem a escreveu; guardá-la onde só essa pessoa encontra reproduz exatamente o problema que ela deveria resolver.

Um repositório simples, com data e responsável, atende. A sofisticação do meio importa muito menos do que o fato de existir um.

Uma página não conserta uma instituição

Convém ser honesto sobre o alcance disso.

Preencher oito campos não produz capacidade institucional, não substitui governança e não impede erro. Uma organização que não consegue responder ao campo 2 vai continuar sem conseguir depois de escrever "em definição" ali.

O que a ficha faz é mais modesto e ainda assim raro: transforma um conjunto de escolhas que hoje acontecem sozinhas em escolhas que alguém fez, num dia, e assinou.

Depois disso a instituição pode estar certa ou errada.

Mas passa a poder saber qual das duas, o que hoje quase nunca é o caso.

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Em outros idiomas

O artigo é escrito em português do Brasil e o texto integral está nesta página. As sínteses abaixo são traduções de trabalho, para quem chega por outro idioma.

English · Working translation

The record sheet for an AI use

Nine essays in this series described what is missing. This one supplies the page that fixes most of it — eight fields, and what goes wrong when each is left blank.

This is the procedural piece the series had not written: a single page to be completed before an artificial intelligence use goes into production inside a public body. Each of the eight fields — the decision it supports and who it affects, the rule written out in full, who answers for it, what goes in, what happens to what goes in, how it can be contested, what a unit of it costs, and when and by whom it gets switched off — is justified by a documented failure and, where possible, by existing Brazilian official guidance from the federal AI guide, the audit court's own guide and the data protection authority. The article is explicit about what the sheet is not: it is not a policy, not a maturity model and not a scoring instrument, and it says plainly which uses do not need it at all.

Published on 10 August 2026, in Brazilian Portuguese. The full text is on this page; only this summary has been translated — there is no English version of the article itself. It is part 10 of the series “Caderno do Servidor Aumentado”.

Questions and answers
What is this article about?
A one-page record to be filled in before an artificial intelligence use goes into production in a public body, with eight fields and the reason each one exists.
What are the eight fields?
The decision it supports and who it affects; the rule written out in full; who answers for it; what goes in; what happens to what goes in; how someone affected can contest it; what one unit of use costs; and when and by whom it is switched off.
Is this a maturity model or a scoring tool?
No, and the article refuses that explicitly. There is no score, no level and no certification. A blank field is information, not a failing grade, and turning the sheet into a rating would destroy the only thing it is good for.
Does every use need one?
No. The article states which uses do not: anything exploratory, anything with no effect on a third party, and anything that would take longer to record than to do. The sheet exists for uses that produce administrative effect.

Español · Traducción de trabajo

La ficha de un uso de IA

Nueve textos de esta serie describieron lo que falta. Este entrega la página que resuelve la mayor parte — ocho campos, y qué sale mal cuando cada uno queda en blanco.

Esta es la pieza procedimental que la serie aún no había escrito: una sola página para completar antes de que un uso de inteligencia artificial entre en producción dentro de un organismo público. Cada uno de los ocho campos — la decisión que apoya y sobre quién produce efecto, la regla escrita por extenso, quién responde, qué entra, qué ocurre con lo que entra, cómo se impugna, cuánto cuesta una unidad de uso, y cuándo y por quién se apaga — se justifica con una falla documentada y, cuando es posible, con orientación oficial brasileña ya existente: la guía federal de IA, la guía del tribunal de cuentas y la autoridad de protección de datos. El artículo es explícito sobre lo que la ficha no es: no es política, no es modelo de madurez y no sirve para puntuar a nadie, y dice con claridad qué usos no la necesitan.

Publicado el 10 de agosto de 2026, en portugués de Brasil. El texto íntegro está en esta página; solo esta síntesis fue traducida — no existe una versión en español del artículo. Es la parte 10 de la serie «Caderno do Servidor Aumentado».

Preguntas y respuestas
¿De qué trata este artículo?
De una ficha de una página para completar antes de que un uso de inteligencia artificial entre en producción en un organismo público, con ocho campos y la razón de existir de cada uno.
¿Cuáles son los ocho campos?
La decisión que apoya y sobre quién produce efecto; la regla escrita por extenso; quién responde; qué entra; qué ocurre con lo que entra; cómo puede impugnarlo quien resulte afectado; cuánto cuesta una unidad de uso; y cuándo y por quién se apaga.
¿Es un modelo de madurez o una herramienta de puntuación?
No, y el artículo lo rechaza explícitamente. No hay nota, ni nivel, ni certificación. Un campo en blanco es información, no una calificación baja, y convertir la ficha en puntaje destruiría lo único para lo que sirve.
¿Todo uso necesita una?
No. El artículo dice cuáles no: lo exploratorio, lo que no produce efecto sobre un tercero, y aquello que tardaría más en registrarse que en hacerse. La ficha existe para usos que producen efecto administrativo.

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