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Quem responde pela planilha que virou sistema

A inteligência artificial permitiu que servidores construíssem as próprias ferramentas. O que ela não resolveu foi de quem é a responsabilidade quando essa ferramenta passa a produzir efeito.

Rodrígo Dell6 min de leitura
Composição abstrata: uma grade discreta de células em que uma única célula acesa em cor quente irradia linhas até várias outras, tornando-se o centro de que as demais dependem.

Uma servidora conhece bem um processo que trava todo mês.

A conferência é manual, leva quase quatro horas, e o erro que ela procura aparece em menos de um por cento dos casos. Ela descreve a regra em linguagem comum a uma ferramenta de inteligência artificial, ajusta o resultado algumas vezes, e no fim da tarde tem algo que faz a mesma conferência em segundos.

Funciona. É melhor do que era. A equipe adota no mês seguinte.

Ninguém pediu autorização porque não parecia haver o que autorizar — era uma planilha com alguns automatismos, feita por quem conhecia o assunto, para resolver um problema que já existia.

Oito meses depois, ela é removida para outra unidade.

A ferramenta continua rodando.

E a primeira pessoa que precisa explicar por que determinado caso foi sinalizado descobre que ninguém, na unidade inteira, sabe dizer qual é exatamente a regra que está sendo aplicada.

O ganho é real, e não é isso que está em questão

Convém dizer com clareza antes de qualquer ressalva: o que aconteceu ali é bom.

A distância entre identificar um problema e construir uma solução encolheu de forma drástica. Antes, quem enxergava o problema dependia de orçamento, de fila em uma área técnica e de conseguir explicar a necessidade para alguém que não conhecia o processo. Agora, em muitos casos, quem enxerga o problema consegue resolvê-lo.

Isso desloca capacidade para onde está o conhecimento do trabalho, que é exatamente onde ela deveria estar.

Não existe versão sensata deste texto que termine recomendando proibir. Uma instituição que proíbe o servidor de construir não recupera controle — apenas devolve o problema para a fila em que ele já estava parado, e passa a ter a ferramenta funcionando fora do seu campo de visão.

A questão não é se isso deve acontecer.

É o que a instituição precisa decidir para que continue acontecendo sem que ela perca a conta do que está sendo feito em seu nome.

O que foi criado ali não foi uma planilha

O nome atrapalha. Chamar de planilha, de automação, de atalho, sugere um objeto pessoal, do tipo que cada um organiza como prefere.

Mas o que existe ali tem entrada, tem regra, tem saída e produz consequência sobre um terceiro.

Esse conjunto tem um nome na administração pública, e o nome é sistema. Não pela sofisticação técnica — a sofisticação é irrelevante para essa classificação —, e sim porque um ato administrativo passou a depender do que aquilo devolve.

A partir do momento em que a saída da ferramenta entra num processo que afeta alguém, ela deixou de ser um recurso de produtividade individual e virou parte da forma como o Estado decide.

E o que decide precisa poder ser explicado.

A pergunta que ninguém faz no dia em que funciona

No dia em que a ferramenta funciona, a conversa é sobre o ganho. É natural, e é justo.

A pergunta que fica para depois é esta: se essa conferência sinalizar indevidamente o caso de um cidadão, quem responde?

A resposta jurídica não é difícil. Responde a autoridade que praticou o ato, como responderia se a conferência tivesse sido feita à mão. A responsabilidade não desaparece porque a ferramenta é informal — o que desaparece é a possibilidade de reconstruir como se chegou àquele resultado.

E aqui está a diferença que importa. Um erro humano numa conferência manual deixa rastro: existe alguém que examinou, existe um raciocínio que pode ser reconstituído em conversa, existe a chance de dizer que se enganou.

Um erro numa regra automatizada que ninguém escreveu por extenso não deixa nada disso. Ele se repete de forma idêntica em todos os casos, silenciosamente, até que alguém de fora perceba — e quando percebe, a instituição não tem como dizer há quanto tempo aquilo acontece.

Shadow IT é sintoma, não desobediência

A reação institucional comum é tratar isso como problema de conduta. Não é.

Quando um servidor constrói a própria ferramenta em vez de pedir, está informando algo sobre a organização: o caminho oficial era mais lento que o problema. Às vezes muito mais lento. Às vezes o caminho oficial nem existe para uma demanda daquele tamanho, porque foi desenhado para sistemas corporativos e não para uma conferência mensal de uma unidade.

Punir esse comportamento não o elimina. Torna-o invisível.

E invisível é estritamente pior, porque a instituição perde a única coisa que ainda tinha: saber quais regras estão sendo aplicadas em seu nome.

O trabalho, portanto, não é fechar o caminho informal. É criar um caminho formal que seja rápido o suficiente para competir com ele.

Quatro decisões que resolvem a maior parte disso

Primeira: homologação proporcional ao efeito. O erro mais comum é ter um único procedimento, pesado, para tudo — o que garante que ninguém o use para o que é pequeno. Uma ferramenta que organiza a agenda de uma equipe e uma que tria pedidos de cidadãos não podem exigir o mesmo trâmite. Sem gradação, a regra vira letra morta no dia em que é publicada.

Segunda: registrar a regra, não a implementação. O que precisa sobreviver não é o arquivo nem o código: é o critério. Que condição faz um caso ser sinalizado, com que fundamento, decidido por quem e quando. Escrito num lugar da instituição, em linguagem que um sucessor entenda. A implementação pode ser refeita em uma tarde; o critério levou anos para existir.

Terceira: nomear responsável antes de outra área depender. Enquanto a ferramenta serve a quem a construiu, o risco é contido. No momento em que uma segunda unidade passa a usar o resultado, ela deixou de ser pessoal, e alguém precisa responder por ela formalmente — inclusive para poder dizer não quando pedirem uma alteração que muda o critério.

Quarta: decidir o que acontece quando a pessoa sai. Não é hipótese remota; é rotina do serviço público, entre remoções, licenças, promoções e fim de mandato. A pergunta a fazer no dia da adoção, e não no dia da saída, é se outra pessoa autorizada consegue localizar, compreender, operar e revisar aquilo. Se não conseguir, o que a instituição tem não é uma capacidade — é uma pessoa, e pessoas legitimamente vão embora.

Essas quatro são o mesmo movimento visto de ângulos diferentes: transformar uma solução que funciona numa solução que a instituição consegue explicar, manter e corrigir. É a diferença entre apenas produzir e construir capacidade, aplicada ao caso em que o servidor produziu muito bem.

O que isso tem a ver com autoridade

Há uma conexão com um assunto que já tratei aqui.

Quando a regra aplicada não está escrita e a ferramenta acerta quase sempre, contrariar o resultado passa a exigir justificativa, e segui-lo não exige nada. É a mesma assimetria descrita em A delegação não avisa quando vira substituição — com o agravante de que, aqui, não houve sequer uma decisão institucional de delegar.

A ferramenta não recebeu competência de ninguém.

Ela foi ficando indispensável.

O ponto

O servidor que constrói a própria ferramenta está fazendo exatamente o que se espera de alguém que conhece o problema e agora tem meios para resolvê-lo. O erro não é dele.

O erro é a instituição tratar como assunto pessoal uma coisa que passou a produzir efeito público — e só descobrir que era institucional no dia em que precisa explicar uma decisão e não encontra quem a tomou.

Uma ferramenta que ninguém homologou continua sendo responsabilidade do órgão.

A única coisa que a informalidade removeu foi o nome de quem responde.

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O artigo é escrito em português do Brasil e o texto integral está nesta página. As sínteses abaixo são traduções de trabalho, para quem chega por outro idioma.

English · Working translation

Who answers for the spreadsheet that became a system

Artificial intelligence let public servants build their own tools. What it did not settle is who is responsible once one of those tools starts producing effects.

When a civil servant can describe a need in plain language and get a working tool, the distance between spotting a problem and solving it collapses. The article takes the gain seriously and then asks the institutional question nobody asks on the day it works: who answers for it. It argues that an administrative act supported by an unapproved tool is still an administrative act, that responsibility does not disappear because the tool is informal, and that shadow IT is a symptom rather than disobedience — evidence that the official route was slower than the problem. It proposes four decisions: an approval path proportionate to the effect, writing down the rule rather than the implementation, naming an owner before other areas come to depend on it, and deciding in advance what happens when the person who built it leaves.

Published on 2 September 2026, in Brazilian Portuguese. The full text is on this page; only this summary has been translated — there is no English version of the article itself. It is part 8 of the series “Caderno do Servidor Aumentado”.

Questions and answers
What is this article about?
Tools built inside a public body by the people who understand the problem — and the accountability gap that opens when one of those tools starts producing real effects without ever being formally approved.
What does it argue?
That the ability to build is a genuine gain and should not be shut down, but that an administrative act supported by an unapproved tool remains an administrative act. Responsibility does not vanish because the tool is informal; it simply stops having an identifiable owner.
Is shadow IT the servant's fault?
No. It is a symptom that the official route was slower than the problem. Punishing it does not remove it — it makes it invisible, which is worse, because the institution loses the ability to know which rules are being applied on its behalf.
What does it propose?
Four decisions: an approval path proportionate to the effect produced, recording the rule rather than the implementation, naming an owner before other areas depend on the tool, and deciding what happens when the person who built it is transferred.

Español · Traducción de trabajo

Quién responde por la planilla que se volvió sistema

La inteligencia artificial permitió que los funcionarios construyeran sus propias herramientas. Lo que no resolvió es de quién es la responsabilidad cuando esa herramienta produce efectos.

Cuando un funcionario puede describir una necesidad en lenguaje corriente y obtener una herramienta que funciona, la distancia entre detectar un problema y resolverlo se desploma. El artículo toma en serio esa ganancia y luego formula la pregunta institucional que nadie hace el día en que funciona: quién responde. Sostiene que un acto administrativo apoyado en una herramienta no homologada sigue siendo un acto administrativo, que la responsabilidad no desaparece porque la herramienta sea informal, y que el shadow IT es un síntoma antes que una desobediencia — prueba de que el camino oficial era más lento que el problema. Propone cuatro decisiones: una vía de homologación proporcional al efecto, registrar la regla y no la implementación, nombrar responsable antes de que otras áreas dependan de ella, y decidir de antemano qué ocurre cuando la persona que la construyó se va.

Publicado el 2 de septiembre de 2026, en portugués de Brasil. El texto íntegro está en esta página; solo esta síntesis fue traducida — no existe una versión en español del artículo. Es la parte 8 de la serie «Caderno do Servidor Aumentado».

Preguntas y respuestas
¿De qué trata este artículo?
De las herramientas construidas dentro de un organismo público por quienes entienden el problema — y del vacío de responsabilidad que se abre cuando una de ellas empieza a producir efectos reales sin haber sido homologada.
¿Qué sostiene?
Que la capacidad de construir es una ganancia real y no debe cortarse, pero que un acto administrativo apoyado en una herramienta no homologada sigue siendo un acto administrativo. La responsabilidad no desaparece porque la herramienta sea informal: solo deja de tener un titular identificable.
¿El shadow IT es culpa del funcionario?
No. Es un síntoma de que el camino oficial era más lento que el problema. Castigarlo no lo elimina: lo vuelve invisible, que es peor, porque la institución pierde la capacidad de saber qué reglas se aplican en su nombre.
¿Qué propone?
Cuatro decisiones: una homologación proporcional al efecto producido, registrar la regla y no la implementación, nombrar responsable antes de que otras áreas dependan de la herramienta, y decidir qué ocurre cuando la persona que la construyó es trasladada.

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