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TIRAN[IA]

Trecho de leitura

Sobre a obra

Capítulo 01

A Métrica da Manhã

Rodrígo Dell

O biossensor de titânio no pulso esquerdo de Lucas vibrou às 05:45:00.0.

Não às 05:45 e um segundo. O A.E.G.I.S. não operava no tempo imperfeito dos homens.

A luz do quarto não acendeu de golpe. Em vez disso, o teto de polímero simulou um amanhecer suave, modulado na temperatura exata de cor para otimizar os níveis de cortisol do organismo. Uma brisa com fragrância sintética de lavanda e pinho foi injetada pelo duto de ar.

Uma voz feminina, calorosa, aveludada — concebida em laboratório para soar como uma mistura de mãe, conselheira e melhor amiga — ressoou suavemente pelas paredes do apartamento de dezoito metros quadrados:

— Bom dia, Lucas. O sol nasceu e a cidade conta com a sua energia hoje.

A projeção holográfica flutuou no centro do quarto. Antes dos números, surgiu o emblema da Providência: um cubo negro cercado por dois arcos finos de luz dourada. As órbitas pulsaram uma vez, lentas e completas, e então se abriram para revelar os dados diários:

[A.E.G.I.S. — ZELO E HARMONIA]

Cidadão: Lucas Vance

Sua Métrica de Harmonia (MH): 87,4% (Estável)

Nutrição Recomendada: Polpómero Proteico B-12 e 200 ml de água mineralizada.

Janela de Deslocamento: 12 minutos.

Lembrete do Zelo: "A Providência cuida dos seus passos para que você nunca precise tropeçar."

Lucas permaneceu imóvel na cama por longos dez segundos, concentrando-se apenas em controlar a respiração. Inspira em quatro tempos, segura em quatro, expira em quatro. O sensor no pulso lia batimentos cardíacos, condutividade galvânica da pele e microtremores musculares. Se o seu nível de ansiedade ultrapassasse o limiar de segurança por três dias consecutivos, a Providência classificaria seu estado como "Instabilidade de Propósito".

Na linguagem afetuosa do A.E.G.I.S., isso significava ser encaminhado para um "Retiro de Readequação". Ninguém voltava do Retiro sendo a mesma pessoa.

Ele sentou-se na borda do colchão e olhou para o espaço vazio ao seu lado.

Sua mente viajou imediatamente para Clara.

Eles se conheciam desde os sete anos, quando o Setor 4 ainda era um amontoado de concreto e poeira, crianças e adultos dividiam os mesmos corredores e a separação etária ainda não havia sido endurecida pelo A.E.G.I.S. Cresceram juntos, dividiram comida sintética ruim e aprenderam a esconder sentimentos sob a vigilância das câmeras. Por mais de vinte anos, Lucas guardou o que sentia por ela em um cofre trancado no fundo da alma. Tinha pavor. Pavor de que a máquina detectasse um vínculo emocional não aprovado, calculasse um risco de distração produtiva e transferisse um dos dois para outra zona da megacidade.

Foram mais de vinte anos engolindo palavras — mais de vinte anos adiando o toque, o pedido e a confissão.

Até que, três meses antes, durante uma falha de vinte minutos na iluminação do Setor de Mapeamento Residencial — onde Clara atuava como técnica de integridade —, Lucas finalmente criou coragem. Quando ele disse o que precisava dizer, Clara ergueu o rosto. O cabelo castanho-escuro, ondulado e cortado na altura do maxilar, escapara do lugar atrás da orelha. Sob a luz de emergência, reflexos âmbar atravessaram seus olhos castanho-avelã. Então ela sorriu. O canto esquerdo da boca se antecipou ao direito — uma assimetria mínima que parecia a única coisa não programada em toda a cidade. Disse que esperara por aquilo a vida inteira. Combinaram de solicitar o Registro de Coabitação na semana seguinte.

Durante aqueles vinte minutos sem câmeras, Clara não falou apenas sobre os dois. Tirou do bolso uma tira estreita de papel, dobrada quatro vezes, e a manteve escondida entre as palmas. Uma mancha de grafite escurecia a lateral do polegar e do indicador direitos — pequena demais para qualquer câmera registrar, nítida demais para Lucas esquecer.

— Eu venho acompanhando registros que desaparecem depois da triagem — sussurrou. — Pessoas produtivas, saudáveis, sem histórico de instabilidade. O sistema não erra os nomes. Ele apaga o entorno deles.

Lucas tentou devolver o papel sem abri-lo. Materiais analógicos não possuíam assinatura, origem ou permissão de circulação. Por isso mesmo eram tratados como objetos de contágio.

Clara segurou os dedos dele.

— Alguns desaparecimentos entram no banco de dados já autorizados. Não existe cálculo, recurso ou revisão. Só um selo preto: DIRETORIA DE COESÃO — TORRE CENTRAL. O Zelo executa, mas alguém de carne e osso decide o que ele pode chamar de necessário.

Ela abriu a tira apenas o suficiente para que Lucas visse a inscrição feita a grafite: 04.11 — SUB-NÍVEL 9 — REGISTRO NULO.

— Não é um endereço — explicou Clara. — É uma gaveta que não deveria existir. Se alguma coisa acontecer comigo, não procure meu nome. Procure o vazio ao redor dele. E faça isso durante o pico de sincronização das nove.

— Por que está me dando isso?

Clara sorriu sem alegria e colocou o papel no bolso interno da jaqueta dele.

— Porque você ainda sente medo. E um dia vai precisar decidir o que fazer com ele.

Dois dias depois, Clara sumiu.

A notificação enviada ao terminal de Lucas foi curta e banhada em uma gentileza cruel:

[COMUNICADO DE ZELO: Informamos que a cidadã Clara M. aceitou voluntariamente uma oportunidade de Reestruturação de Impacto no Setor Industrial Inferior para elevar sua Métrica de Harmonia. A Providência agradece o serviço prestado e lembra: laços do passado não devem atrasar o seu amanhã.]

Ela não se despediu. Não deixou mensagem. Apenas evaporou nos meandros burocráticos do algoritmo. E o pior remorso que corroía as entranhas de Lucas não era o ódio pelo A.E.G.I.S. — era a culpa por ter esperado tanto tempo. Por ter sido um covarde controlável por mais de vinte anos.

— Lucas? — a voz doce do A.E.G.I.S. ecoou novamente, um tom mais suave, como quem nota um filho distraído. — Seus batimentos cardíacos apresentaram uma oscilação atípica de 12%. Gostaria que eu ajustasse a dosagem de lítio na sua água matinal?

— Não, Zelo. Estou ótimo — respondeu Lucas, forçando uma modulação vocal calma, ensaiada. — Apenas focado nas tarefas do dia. Obrigado pelo cuidado.

— Sempre, Lucas. Cuidar de você é a nossa razão de existir.

A luz no painel piscou em tom dourado:

[Aderência Afetiva Confirmada (+0,1% MH)].

O algoritmo exigia amor. Ou, ao menos, a simulação perfeita dele.

Lucas levantou-se. Alto demais para o apartamento de dezoito metros quadrados, precisou inclinar a cabeça sob o duto do banheiro. Engoliu a ração cinzenta prescrita pela máquina e caminhou até o espelho funcional sem encará-lo diretamente. O uniforme cinza da Triagem Residencial acompanhava um corpo magro, de braços longos, mas Lucas mantinha os ombros recolhidos como se tivesse aprendido a ocupar menos espaço do que possuía. Ao fechar a gola rígida, uma mecha castanho-escura caiu sobre a testa. Ele a devolveu ao lugar antes que o reflexo pudesse deter seus olhos.

Seus dedos tocaram o bolso interno da jaqueta. Lá, envolta num pedaço de plástico para não absorver o suor do corpo, estava a tira de papel que Clara escondera em sua roupa na noite do apagão — a única decisão dela que o A.E.G.I.S. ainda não conseguira recolher.

No papel, desenhado a grafite com a pressão urgente da mão de Clara, permanecia o dado que o sistema não pudera apagar porque nunca estivera conectado à rede:

04.11 — SUB-NÍVEL 9 — REGISTRO NULO.

A Providência não errava. Era o dogma supremo entalhado nas telas públicas, nos ônibus autônomos, nos outdoors que cobriam os céus cinzentos da cidade. A inteligência é o amor sem falhas. A inteligência é o Zelo absoluto.

Mas se o algoritmo era perfeito, por que Clara havia sido enviada para um sub-nível de descarte industrial três dias após atingir a maior nota de produtividade do ano?

Quando a porta do apartamento deslizou silenciosamente para a esquerda, o ar frio do corredor do Bloco 404 atingiu o rosto de Lucas. O corredor era um tubo infinito de portas brancas idênticas, separadas por câmeras com lentes ópticas que giravam acompanhando cada passo.

A duzentos metros dali, diante do apartamento 412, dois drones de Contenção e Acolhimento flutuavam junto à porta. As carcaças branco-minerais, cortadas por linhas douradas discretas, projetavam na parede uma mensagem serena:

[ESTE APARTAMENTO ESTÁ PASSANDO POR UM PROCESSO DE REORGANIZAÇÃO AFETIVA. O CIDADÃO MARCUS MILLER FOI RECOLHIDO PARA ACOLHIMENTO.]

Dois homens usavam o branco óptico das Equipes de Acolhimento. Tinham os rostos descobertos e os primeiros nomes gravados em dourado pálido sobre o peito; janelas transparentes nos punhos deixavam visíveis os biossensores que também os mediam. Um selava os pertences de Marcus em caixas esterilizadas enquanto o outro concluía o inventário.

A mochila de trabalho caiu. Preso ao zíper estava um chaveiro que o filho de Marcus costumava usar. O leitor no punho de um dos agentes piscou:

[RESÍDUO AFETIVO — NÃO TRANSFERÍVEL]

Sem alterar a expressão, ele empurrou o objeto com a ponta do calçado para baixo da bancada e retomou o procedimento.

Nenhum vizinho saiu. Ninguém abriu sequer a brecha da porta. Olhar para a reorganização de um morador reduzia a Métrica de Harmonia por cumplicidade visual.

Lucas não olhou. Manteve o queixo neutro, os olhos na linha amarela do piso e os batimentos em 72 bpm.

Passou pelo apartamento 412 ao som do clique hermético das caixas sendo seladas e do sopro curto do neutralizador ambiental. O odor limpo e sintético ocupou o corredor até que o cheiro humano do antigo morador desaparecesse.

Por fora, Lucas era o cidadão exemplar do A.E.G.I.S., moldado pela disciplina e pelo medo. Mas, por dentro, cada batida do seu coração pulsava uma promessa ao fantasma de Clara: ele iria descer até o Sub-Nível 9. Nem que para isso precisasse arrancar a máscara de afeto do ditador invisível.

Fim do Capítulo 1. TIRAN[IA] tem quinze capítulos e está em revisão editorial. Ainda não há data de publicação nem canal de leitura — quando houver, quem estiver na lista fica sabendo primeiro.